O vinil voltou, mas você tem dinheiro para comprar? Tem uma vitrolinha para ouvir?

Essas duas perguntas estão bombando na minha cabeça, pois acabei de mandar prensar 250 cópias do meu disco, Moto Contínuo, em LP e, sinceramente, não sei como será a distribuição disso, ou se as pessoas vão mesmo comprar a bolacha.
Eu sou colecionador de LPs. Tenho quase 1.000 discos, mas quando comecei a coleção, ainda não existia essa agitação toda em cima dos sulcos negros do disquinho. Comprei muito disco barato, roubei e ganhei LPs das minhas tias e amigos que queriam se desfazer daquele peso todo, afinal de contas, o CD era menor, e tinha uma qualidade melhor.
Ah, titias, como vocês se enganaram.
A qualidade do vinil é bem superior a do CD, e, segundo os grandes músicos do Jazz, o vinil tem uma onda que o CD não consegue ler em seus dígitos binários. Sem falar no projeto gráfico, que é tremendamente superior. Mas não quero fazer comparações entre LP e CD (o vinil é muito melhor), vamos nos ater apenas ao revival que acontece com o vinil.

Porque os lançamentos em LP são tão caros?
1– O imposto que se paga no Brasil é altíssimo.
2– Só temos uma fábrica que prensa vinil no Brasil, a Polysom.
Se o imposto fosse menor o LP sairia a um preço mais acessível. O fabricante paga uma carga tributária imensa, e o lojista põe seu preço em cima, tornando o valor final do disco um absurdo, mas não tem outro jeito.
Quando eu estava procurando onde prensar o Moto Contínuo, fiz vários orçamentos, dentro e fora do país. Na Polysom, a unidade do disco saía a quase 30 paus da fábrica.
Para conseguir sair no zero a zero, eu teria que vender meu disco a 60 reais…isso se você comprasse na minha mão. Na mão do lojista esse preço vai pra 90 reais ou até mais, pois ele também precisa lucrar em cima do produto, certo?
Então, já deu pra perceber que o buraco é bem mais fundo do que se imagina.

Se existissem outras fábricas prensando LPs esse preço cairia, pois quando existe concorrência entre empresas, quem ganha é o consumidor. Mas, o governo também deve fazer a sua parte e baixar os impostos, exatamente para acontecer essa concorrência saudável.
Aí você me pergunta: E não dá pra prensar o LP em outro país?
Dá sim, e já tem um monte de gente fazendo isso. Eu mesmo to prensando meu LP na República Tcheca, que é um pouco mais barato do que fazer no Brasil, mesmo assim, ainda é caro.
Existem representantes de fábricas gringas de LP no Brasil, mas o processo é quase artesanal. São pequenas tiragens, muitas reuniões, e aquela nóia de sempre: Será que vai chegar tudo certo? Se não chegar, como eu vou reclamar? Quanto tempo vai levar para que os erros sejam corrigidos?
Bom, essas nóias passam pela minha cabeça, mas até agora, todos os discos que foram prensados fora do país chegaram na boa e com ótima qualidade.
Criolo prensou o “Nó na orelha” na República Tcheca, Lucas Santtana e Karina Buhr fizeram os seus pela Vinil land, outra representante que manda prensar os LPs lá fora. Belos discos, qualidade inquestionável e um pouquinho mais barato que a fábrica brasileira.
Mas, você não é artista, tá pouco fodendo para as fábricas, e só quer comprar o disco por um preço decente.
É amigo, você vai ter que esperar alguma mudança na indústria para conseguir pagar menos na bolacha.
E as radiolas? De que adianta ter o vinil se você não tem onde ouvir?
Se eu fosse tu, corria num desses sebos de velharias, pois é só lá que tu vai encontrar uma radiola um pouco mais barata…surradinha, mas barata.
Quando se deu a mudança do vinil pro CD, as fábricas brasileiras pararam de fazer toca discos. Lembram daqueles sistemas 3 em 1? Radiola, K-7 e CD?
Eram 3 coisas funcionando mais ou menos, mas dava para ouvir, né? Quebrava um galho.
Agora, querido, se tu quiser comprar um toca disco legal, tem que desembolsar uma grana, pois só os fabricantes gringos continuam produzindo a bagaça.
Se o disco é caro, imagina a pick-up?

E, porque os relançamentos em LP são tão caros?
Se você tivesse algo que é difícil de achar, venderia mais barato? Claro que não!
Além do mais, os fabricantes de vinil tem que pagar os direitos autorais para os artistas, né? Então o preço sobe…o preço só sobe.
Mesmo os LPs que não foram relançados são caros. Pra você ter uma idéia…em 1999 eu comprei o “Opinião” de Nara Leão a 1 real, hoje, esse disco custa 50 paus no mercado livre. O clássico “Carlos Erasmo”, de Erasmo Carlos, custa 300 reais nos sebos, e o original de “Paêbirú” de Lula Cortes e Zé Ramalho, está sendo vendido na gringa por 1.000 reais, e seu relançamento custa quase 500 pratas no Brasil.
Resumindo todo o papo…a volta do LP ainda é um produto para poucos, infelizmente, mas, logo, logo esse quadro muda, pois a procura pela bolachinha só aumenta. E quando a procura aumenta, a concorrência cresce e o preço cai. Assim funciona o mercado. Ou não, como diria Caetano.
Nota: o LP do Moto Contínuo chega nas lojas em dezembro.
Nota 2: Existem muitas feiras de vinil acontecendo pelo país. Escolha a mais perto da sua casa.
Nota 3: Você sabia que muitos artistas brasileiros estão preferindo lançar discos em LP do que em CD?
Estamos retrocedendo para fazer o futuro.















